Aleijadinho: se uma invenção, e daí?     por Ivo Lucchesi *

Sem o propósito deliberado de firmar polêmica sobre o tema cuja origem remete à pesquisa de Dalton Sala, segundo quem a autoria das belas esculturas não pertenceria à figura de Antonio Francisco Lisboa (Aleijadinho), interessa-me o fato de enfocar a questão por outro ângulo: a autonomia da arte e a verdade.

Afirmam os positivistas que, contra os fatos, não há argumentos. Já os jornalistas consideram serem mais importantes que os fatos suas possíveis versões. Por fim, os semiólogos julgam estar, acima dos fatos e das versões, a interpretação. Confesso-me inclinado a ser parceiro da terceira vertente, principalmente quando o objeto de discussão envolve a arte.

Aflige o ser humano o fantasma da verdade e da mentira. Há uma irrefreável tentação no sentido de se aprisionar o sentido sobre todas as coisas. Parece-nos que, quando o conseguimos, tornamo-nos menos inseguros e mais fortes. O problema, porém, é que a arte, embora se origine da substância do mundo, não comporta a contaminação do que é mundano.

Por outra via, deseja-se afirmar que o mundano não serve para se tentar extrair a verdade da arte. A arte desliza no tempo-espaço em regime de plena liberdade, o que possibilita que seus conteúdo e forma se reatualizem, à luz das transformações. 

É isto que explica o fato de uma obra concebida no século V de Péricles, a exemplo da tragédia Édipo Rei, prestar-se como desafio à compreensão de fenômenos contemporâneos. Nada a alterará, se, num futuro qualquer, alguém encontrar um documento no qual figure que a autoria da peça não é de Sófocles. O que foi criado artisticamente haverá de continuar seguindo seu próprio caminho. O resto fica por conta da "fofoca histórica". E fim.

Louve-se o espírito diligente do pesquisador Sala. Todavia, sua contribuição, se correta o for, apenas imporá pequenas alterações no campo da informação. Em nada, o conjunto de signos a configurar a estética presente em Congonhas do Campo sofrerá qualquer abalo. Ali está consignado um modo de apreender o real na sua dimensão mais profunda acerca das dores do mundo, de suas tensões, de sua beleza, de suas contradições. Enfim, uma visão de contrastes na mais profunda estetização barroca.

É preciso ainda ressaltar que, em tempos mais antigos, a autoria de qualquer obra era um dado inexpressivo, sujeito a circunstâncias das mais diversificadas. A autoria, como hoje a conhecemos, deriva de uma construção narcisista e patrimonial do imaginário burguês, diante de sua doentia aspiração à eternidade e ao lucro.  A obra escultural de Aleijadinho (ou de quem tenha sido) está fora de quaisquer contaminações ocasionais.

Atlante sustenta a tribuna do coro da capela de Nossa Senhora do Carmo, da Ordem Terceira do Carmo, em Sabará, MG., in O Aleijadinho, Germain Bazin, Editora Record, RJ., 2ª ed. 1963, p. 185. Direitos de reprodução reservados à Editora Record.

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Como arte, nada do que sobre ela se venha a descobrir ou a encobrir, a atingirá. E é apenas na condição de criação artística que as esculturas adquirem real e perene interesse.

No mais, são curiosidades, bisbilhiotices de alcova ou de gabinetes, ou seja, tudo aquilo que é menor, mesquinho, simplório, apequenado. Tudo que é recusado e ignorado pela arte. Restabelecer ou ratificar a "verdade autoral" a respeito da obra de arte sinaliza o uso de um olhar estrábico que tende a ver o mundo por um viés torto.



* Ivo Lucchesi -- crítico, ensaísta, mestre em Literatura Comparada, doutorando em Teoria da Literatura pela UFRJ e professor titular da FACHA.

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